“É livre a manifestação do pensamento e da expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, sendo vedado o anonimato. (CF 88).”

10 de dez de 2012

“Metade gênio, metade idiota” ou metade bom, metade mau


Refletindo sobre os textos de Reinaldo Azevedo.

“Speer, por si mesmo, não matou ninguém nem sentiu nenhuma animosidade, ódio ou até mesmo aversão pelos milhões de europeus orientais, cristãos e judeus que foram sistematicamente aniquilados; ele não sentiu nada”. 
É a metade má que se apresenta aqui?  Se não sentiu nada, também não houve compaixão.
"Depois, tudo indica, passou um bom tempo sendo corroído pela culpa." Quando a metade boa supera a má? 
O próprio Oscar Niemeyer  disse: "todo o mundo tem um lado bom e um lado ruim, é inteligente ou não."  
Então, o homem é inteligente  ou não é inteligente, mas pode ser bom e  ruim. 
Sendo assim, também pode ser "metade gênio e metade idiota", concluo. Idiota no sentido de  pretensioso, afetado. 

Por que toda essa gritaria contra Reinaldo Azevedo?

Entre 1933 e 1937, quando  "a maior parte do mundo admirou as ideias pioneiras de Hitler" ele estaria agindo com sua metade boa  ou preparando o terreno para por em máxima atividade a sua metade má? 

Niemeyer também falou: "vejo os homens como uma casa, em que você pode consertar as janelas, acertar o aprumo das paredes, pintar. Mas, se o projeto inicial foi ruim, fica prejudicado." 
Entendi que se o projeto inicial for ruim, não tem conserto. 
 Hitler e Stalin foram projetos bons?  Os dois fizeram boas obras: 

Sob a liderança de Stalin, a União Soviética desempenhou um papel decisivo na derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945) e passou a atingir o estatuto de superpotência, após rápida industrialização e melhoras nas condições sociais do povo soviético, durante esse período, o país também expandiu seu território para um tamanho semelhante ao do antigo Império Russo.( wikipedia)

Porém, esse mesmo homem tornou-se  um dos maiores criminosos de todos os tempos.   Morreu no dia 5 de março de 1953, depois de ensanguentar a Rússia por quase três décadas e jugular uma série de nações, reduzindo-as à condição de satélites do ex-império soviético.
Esses dois homens  tiveram o projeto inicial "prejudicado", onde a metade  má anulava a metade boa.  
Como não sentir horror ao ver a imagem acima?
Qual a metade do ser humano admira a personalidade assassina de Stalin? 
Fica a pergunta. 
***
Arquitetura da destruição. Ou: A banalidade do mal e da morte
(...)
A biografia de Speer é fascinante porque afasta a ideia um tanto infantil, pautada pelo cinema, que fazemos de lideranças nazistas: seres sempre irascíveis, ignorantes, violentos, arrogantes. No trato pessoal, fica evidente, as relações podiam ser suaves, até doces. Como é que o mal, no entanto, ganhou tal dimensão? Na página 260 do livro, Gitta Sereny escreve (prestem bastante atenção!):
“Entre 1933 e 1937, a maior parte do mundo admirou as ideias pioneiras de Hitler. Durante os seus primeiros quatro anos como chanceler, ele expandiu o sistema de saúde e de previdência social, bem como os benefícios aos idosos iniciados pioneiramente por Bismarck e depois adotados pela República de Weimar. Seu complexo sistema de obras públicas incluiu uma malha deAutobahnen, inovações como centros urbanos livres da presença de tráfego, com rigorosos controles de poluição, além da ampliação de parques e áreas verdes. (…) John Toland escreveu em seu ‘Afolf Hitler’: ‘Se ele tivesse morrido em 1937, certamente teria sido enterrado como uma das maiores figuras da história da Alemanha”.
Pouca gente se lembra ou sabe, mas Gertrude Stein – sim, ela mesma! – afirmou que Hitler deveria ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Outro que o defendeu com paixão foi Bernard Shaw. “Hitler é um líder nato, uma personalidade dinâmica, com uma vontade de ferro e um espírito indômito, e tem a confiança dos velhos e a idolatria dos jovens”, escreveu David Lloyd George no Daily Express depois de assistir aos Jogos Olímpicos de 1936.
E Hitler, no entanto, nesses anos ainda iniciais do desastre, já havia dado mostras da barbárie a que poderia conduzir a Alemanha – e o mundo, dadas as circunstâncias – se pusesse em prática, como pôs, as suas ideias. Em 1926, os dois volumes de Mein Kampf” já haviam sido publicados. Em 1935, entraram em vigor as Leis de Nuremberg, que cassaram a cidadania dos judeus alemães, banidos de qualquer função pública. Não obstante, era admirado por seus “espírito inovador”…
Como pôde Speer, um homem de talento, servir ao horror com tanta dedicação? Ele só deixou de obedecer à ordem final de Hitler, o “Decreto Nero”, que mandava que as forças alemãs literalmente incendiassem o país, destruíssem toda a infraestrutura, muito especialmente as pontes, para dificultar a ocupação pelos Aliados. Speer fez justamente o contrário: tomou providências para que não acontecesse – pelo menos na área sob sua influência.
Por quê?
Por que os homens de gênio podem servir ao terror? Niemeyer não foi o nosso Speer porque não tivemos o nosso Hitler, mas não houve facínora comunista a quem não tenha emprestado seu apoio. Afinal de contas, a sua ideologia, a exemplo da do arquiteto do Reich, lhe impunha que ignorasse o horror presente em nome de uma visão de futuro.
Na página 646 do livro, Gitta Sereny transcreve um trecho de “Por Dentro do Terceiro Reich”. Ali fica evidente que Speer sabia, sim, da “solução final”, embora preferisse não pensar no assunto. E cumpriria perguntar: “Como não saber”? Um fio de dignidade lhe coube. Escreveu: “(…) declarei à Corte Internacional de Nuremberg, durante o julgamento, que, como um importante membro do escalão de liderança do Reich, eu tinha de arcar também com toda a responsabilidade por tudo o que havia acontecido (…). E até hoje eu me sinto totalmente responsável, em termos pessoais, pelo que aconteceu em Auschwitz”. Speer foi o único da cúpula nazista que não procurou ou negar os eventos ou alegar a obediência devida.
Um parágrafo do livro, à página 987,  é perturbador: “Speer, por si mesmo, não matou ninguém nem sentiu nenhuma animosidade, ódio ou até mesmo aversão pelos milhões de europeus orientais, cristãos e judeus que foram sistematicamente aniquilados; ele não sentiu nada”. Depois, tudo indica, passou um bom tempo sendo corroído pela culpa.
Eis aí: temamos a capacidade que têm certos homens – ainda que geniais – de não sentir nada diante do horror. Speer, de fato, serviu a Hitler, e Niemeyer não serviu pessoalmente a Stálin. Mas integrou uma geração de intelectuais mundo afora que esconderam ou justificaram sistematicamente os crimes cometidos pelo comunismo. Mas os crimes de Stálin eram conhecidos desde sempre? Só para registro: o escritor francês André Gide, por exemplo, denunciou a tirania já em 1934, depois de uma viagem ao país – “Retour de l’URSS” – e foi tratado como escória pelos intelectuais de esquerda. Como era homossexual, sua crítica foi tomada apenas como chiliques de uma bicha…  Vocês sabem como os esquerdistas são incapazes de ser preconceituosos, não é mesmo?
O arquiteto brasileiro, como resta evidente por seus textos escritos até os momentos finais, não viveu a fase da remissão. Ao contrário: Stálin morto, o homicida em massa lhe restou como uma referência de “homem fantástico”. Não faz tempo, fiel à sua luta, Niemeyer recebeu um representante dos narcoterroristas das Farc para colaborar com a causa.
Speer, que não matou ninguém com as próprias mãos, pergunta-se até onde ele poderia ter ido, naquele ambiente, sob uma ordem de Hitler. Ele se pergunta, mas não responde.
Se um dia vocês lerem “Stálin – A Corte do Czar Vermelho”, de Simon Sebag Montefiore, prestem especial atenção ao capítulo 26, intitulado “A Tragédia e a Depravação da Família Iejov”(página 319 e seguintes), que mostra a que extremos podia chegar o poder absoluto do “homem fantástico”, que Niemeyer tanto admirava. Há passagens que remetem a “Salò ou os 120 dias de Sodoma”, o filme-limite, quase impossível de ver, de Pasolini.
Nada tenho a fazer com a estupidez dessa canalha que fica babando seu fel na rede – e que, de fato, não está nem aí para o que escrevi sobre Niemeyer. Trata-se apenas de um pretexto para me atacar por causa de mensalão, Rosegate e outros lambanças com dinheiro público praticadas pelo petismo.
Niemeyer teve a grande sorte de ver suas ideias políticas derrotadas no Brasil. Por aqui, foi a democracia que encomendou e ergueu as suas obras. Mas emprestou, sim, infelizmente, o seu talento para a tirania e para tiranos. E essa sua metade idiota não merece nem admiração nem perdão. Porque, sob ela, jazem muitos milhões de cadáveres. E eu tenho um compromisso com a vida, com a liberdade e com os valores da democracia, não com fascistas, de esquerda ou de direita.
PS – A baixaria nas redes sociais atinge níveis inéditos. Sites financiados por estatais abrem suas respectivas áreas de comentários para o xingamento puro e simples. Nada que seja incompatível com essa gente, mas espantoso ainda assim. Não entrem no jogo. Na lama, eles têm mais habilidade.
Por Reinaldo Azevedo
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